Se a IA aumenta produtividade, esse ganho não pode ser apropriado apenas pelos acionistas. Deve se converter em melhores salários, redução da jornada sem redução salarial, saúde e segurança, qualificação profissional, estabilidade no emprego e melhoria dos serviços públicos
AInteligência Artificial deixou de ser promessa distante. Ela já está presente nos bancos, no comércio, nas plataformas digitais, nos aplicativos de transporte e entrega, nos call centers, na indústria, na saúde, na educação, no serviço público e até nos processos de recrutamento, avaliação e demissão de trabalhadores. O debate, portanto, não é mais se a IA chegará ao mundo do trabalho. Ela já chegou. A questão decisiva é: a serviço de quem ela será colocada?
Na perspectiva da CUT, a resposta deve ser clara: a Inteligência Artificial não pode ser apropriada apenas como instrumento de redução de custos, intensificação do trabalho, vigilância permanente, substituição de empregos e ampliação dos lucros empresariais. A tecnologia precisa estar submetida ao interesse público, à democracia, à soberania nacional, à negociação coletiva e à valorização do trabalho humano.
A Organização Internacional do Trabalho, em estudo de 2025, estimou que um em cada quatro empregos no mundo está potencialmente exposto à IA generativa, mas destacou que o efeito mais provável, no conjunto da economia, será a transformação das ocupações, e não simplesmente sua eliminação automática. Essa distinção é fundamental: o futuro do trabalho não está determinado pela máquina; será definido por escolhas políticas, econômicas, regulatórias e sindicais.
O problema é que, no capitalismo realmente existente, as inovações tecnológicas costumam ser apresentadas como neutras, inevitáveis e benéficas para todos, quando, na prática, seus ganhos são apropriados de forma desigual. A história do trabalho demonstra que a máquina pode reduzir o esforço humano, ampliar a produtividade e melhorar a qualidade de vida; mas também pode ser usada para desempregar, precarizar, controlar, adoecer e retirar poder dos trabalhadores.
Por isso, a CUT não deve tratar a Inteligência Artificial com medo paralisante nem com entusiasmo ingênuo. A posição correta é a da disputa democrática da tecnologia. A IA deve ser regulada, auditada, negociada e orientada por direitos. Não se trata de ser contra a inovação. Trata-se de impedir que a inovação seja usada contra os trabalhadores.
No Brasil, o próprio debate público já reconhece essa tensão. Em encontro promovido pelo Ministério do Trabalho e Emprego e pelo DIEESE, especialistas apontaram benefícios potenciais da IA, mas também riscos de demissões, automação de serviços, vigilância, insegurança, violação de privacidade e necessidade de qualificação profissional. A discussão também destacou que áreas como programação e atendimento de call center estão entre as mais expostas à substituição tecnológica.
A IA atinge o trabalho por vários caminhos. O primeiro é a automação de tarefas. Atividades repetitivas, administrativas, padronizadas e baseadas em processamento de dados podem ser parcialmente ou totalmente automatizadas. Isso alcança bancários, comerciários, trabalhadores de escritório, operadores de telemarketing, jornalistas, contadores, pessoal administrativo, técnicos de suporte, programadores em determinadas rotinas e até profissionais de áreas jurídicas e educacionais.
O segundo caminho é a gestão algorítmica. Nesse caso, a tecnologia não substitui diretamente o trabalhador, mas passa a comandar, medir e disciplinar seu trabalho. É o algoritmo que distribui tarefas, define metas, mede produtividade, calcula remuneração variável, bloqueia acesso a plataformas, avalia desempenho e, muitas vezes, decide punições sem transparência. Essa lógica, que apareceu com força nas plataformas digitais, tende a se espalhar para o conjunto da economia.
O terceiro caminho é a vigilância digital. Softwares de monitoramento, câmeras inteligentes, reconhecimento facial, rastreamento de localização, controle de tempo de tela, análise de mensagens, sensores e ferramentas de produtividade podem transformar o ambiente de trabalho em um espaço de controle permanente. O MTE registrou, no debate com o DIEESE, preocupações com vigilância, privacidade, falta de respostas claras, demissões, ansiedade dos trabalhadores e “opressão digital” associada ao monitoramento constante.
O quarto caminho é a reorganização das cadeias produtivas. Empresas que dominam dados, infraestrutura computacional e plataformas de IA podem concentrar ainda mais poder econômico. Isso aprofunda desigualdades entre grandes corporações e pequenas empresas, entre países centrais e periféricos, entre trabalhadores altamente qualificados e trabalhadores com menor acesso à formação digital.
Há ainda um risco específico para a democracia sindical: o uso da IA para vigiar organização coletiva, mapear lideranças, prever mobilizações, controlar comunicações internas e individualizar relações de trabalho. A tecnologia pode ser usada para enfraquecer o coletivo, pulverizar categorias, bloquear solidariedade e ampliar o poder unilateral das empresas.
Nesse cenário, a principal pergunta sindical deve ser: quem controla os dados, quem controla o algoritmo e quem fica com os ganhos de produtividade?
Se a IA aumenta produtividade, esse ganho não pode ser apropriado apenas pelos acionistas. Deve se converter em melhores salários, redução da jornada sem redução salarial, saúde e segurança, qualificação profissional, estabilidade no emprego e melhoria dos serviços públicos. A tecnologia que economiza tempo humano deve produzir mais tempo livre para viver, estudar, cuidar, conviver e participar da vida social — não mais desemprego, metas abusivas e jornadas intensificadas.
Essa é uma dimensão estratégica para a CUT. A luta histórica pela redução da jornada de trabalho ganha nova atualidade diante da IA. Se máquinas e sistemas inteligentes ampliam a produtividade social, é justo que a sociedade discuta a distribuição desse ganho. A redução da jornada, sem redução salarial, deve ser apresentada como uma das formas mais civilizadas de enfrentar a automação: em vez de demitir parte dos trabalhadores e sobrecarregar os demais, distribui-se o trabalho existente e os ganhos tecnológicos.
A qualificação profissional também é indispensável, mas não pode ser usada como desculpa para responsabilizar individualmente o trabalhador. Não basta dizer que cada pessoa deve “se adaptar”. A transição tecnológica exige política pública, financiamento empresarial, participação sindical e garantia de renda. O trabalhador não pode pagar sozinho a conta de uma transformação decidida pelas empresas.
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024-2028 aponta objetivos importantes, como inovação sustentável e inclusiva, capacitação, soberania tecnológica e uso da IA para melhorar serviços públicos. O plano também menciona formação, requalificação e uso responsável da IA. Esses elementos são positivos, mas precisam ser concretizados com participação efetiva dos trabalhadores e de suas entidades representativas.
No plano legislativo, o PL 2.338/2023, que trata do desenvolvimento, fomento e uso ético e responsável da inteligência artificial, encontra-se na Câmara dos Deputados, em Comissão Especial, aguardando parecer do relator. A própria ficha da Câmara registra que a proposta tem como eixo a centralidade da pessoa humana e indexa expressamente temas como direitos, trabalho e trabalhador.
Para a CUT, esse debate não pode ficar restrito a empresas de tecnologia, especialistas e governos. A regulação da IA deve incluir, de forma explícita, direitos trabalhistas e sindicais. Sistemas usados para contratar, avaliar, promover, punir, remunerar, monitorar ou demitir trabalhadores devem ser considerados de alto risco e submetidos a regras rígidas de transparência, auditoria, prevenção de discriminação e controle humano.
A experiência europeia aponta nessa direção ao tratar sistemas de IA usados em emprego, gestão de trabalhadores e acesso ao trabalho como aplicações de alto risco. O debate europeu também destaca a necessidade de informar representantes dos trabalhadores e empregados afetados quando sistemas de alto risco forem utilizados no local de trabalho.
No Brasil, uma regulação comprometida com a classe trabalhadora deveria assegurar pelo menos dez garantias: transparência sobre o uso de IA; direito de informação aos sindicatos; negociação coletiva prévia antes da implantação de sistemas de gestão algorítmica; proibição de decisões automatizadas sem revisão humana; auditoria independente de algoritmos; proteção contra discriminação; respeito à LGPD; vedação de vigilância abusiva; planos de transição para evitar demissões; e repartição dos ganhos de produtividade.
A negociação coletiva deve ser o centro dessa agenda. Cada categoria precisa discutir como a IA está sendo implantada em seu setor. Bancários devem negociar limites ao atendimento automatizado e proteção contra metas algorítmicas. Trabalhadores de teleatendimento precisam de garantias contra substituição abrupta por robôs e chatbots. Professores devem discutir IA na educação sem desvalorização do trabalho docente. Servidores públicos precisam de transparência sobre sistemas automatizados de decisão. Trabalhadores de plataformas necessitam de direito de explicação, contestação e revisão das decisões algorítmicas.
Também é indispensável enfrentar o viés discriminatório. Sistemas de IA aprendem com dados históricos. Se os dados reproduzem desigualdades de raça, gênero, idade, território, deficiência ou origem social, o algoritmo pode automatizar injustiças com aparência de neutralidade técnica. Um sistema de recrutamento pode excluir mulheres, negros, pessoas mais velhas ou trabalhadores sindicalizados sem declarar isso explicitamente. Por isso, a regulação deve exigir auditoria, explicabilidade e responsabilização.
Outro ponto central é a saúde mental. A IA pode intensificar o trabalho ao reduzir pausas, ampliar metas, monitorar cada segundo e comparar permanentemente trabalhadores. O resultado pode ser ansiedade, medo, competição extrema, perda de autonomia e adoecimento. A CUT deve afirmar que saúde e segurança no trabalho também valem para ambientes digitais e algorítmicos.
A Inteligência Artificial também tem impacto previdenciário e fiscal. Se a automação reduz empregos formais ou substitui trabalhadores por sistemas proprietários, a arrecadação da Previdência pode ser afetada. Ao mesmo tempo, os lucros das empresas que automatizam processos podem crescer. Esse desequilíbrio precisa ser debatido. A sociedade não pode aceitar um modelo em que a tecnologia destrói contribuições sociais, concentra renda e depois transfere ao Estado e aos trabalhadores a conta do desemprego e da desproteção.
Nada disso significa negar os usos socialmente positivos da IA. Ela pode ajudar a melhorar diagnósticos de saúde, prevenir acidentes, identificar fraudes contra políticas públicas, ampliar acessibilidade, apoiar pessoas com deficiência, reduzir tarefas penosas, fortalecer fiscalização do trabalho, melhorar serviços públicos e democratizar conhecimento. Mas esses benefícios não virão automaticamente. Dependem de direção política, controle social e participação popular.
Por isso, a CUT deve defender uma Inteligência Artificial orientada por quatro princípios: trabalho decente, soberania tecnológica, democracia algorítmica e justiça social.
Trabalho decente significa que nenhuma inovação pode eliminar direitos fundamentais. Soberania tecnológica significa que o Brasil não pode depender integralmente de plataformas estrangeiras, bases de dados privadas e modelos fechados. Democracia algorítmica significa que trabalhadores e sociedade têm direito de saber, contestar e influenciar sistemas que afetam suas vidas. Justiça social significa que os ganhos da tecnologia devem reduzir desigualdades, não ampliá-las.
A disputa sobre a IA é, no fundo, uma disputa sobre o futuro do trabalho. E o futuro do trabalho não pode ser decidido em laboratórios, conselhos empresariais ou departamentos de tecnologia sem a presença dos trabalhadores. A classe trabalhadora precisa entrar nesse debate como sujeito político, não como variável de custo.
A CUT deve afirmar com força: tecnologia sem direitos é precarização sofisticada. Algoritmo sem transparência é poder patronal invisível. Produtividade sem distribuição é concentração de renda. Inovação sem negociação coletiva é autoritarismo digital.
A Inteligência Artificial pode abrir uma nova etapa de desenvolvimento, mas somente se estiver subordinada à dignidade humana, à valorização do trabalho e à democracia. O Brasil tem a oportunidade de construir uma regulação avançada, capaz de proteger trabalhadores, promover inovação responsável e garantir que a tecnologia sirva ao povo.
O desafio da CUT é transformar essa agenda em luta sindical concreta: nas mesas de negociação, no Congresso Nacional, nos conselhos públicos, nas campanhas salariais, nos locais de trabalho e na formação da militância. A IA não pode ser monopólio dos patrões nem dos especialistas. Ela precisa ser debatida por quem vive do trabalho.
Em síntese: a CUT não é contra a Inteligência Artificial. A CUT é contra uma Inteligência Artificial usada para desempregar, vigiar, precarizar e concentrar riqueza. A CUT defende uma IA regulada, transparente, democrática, negociada e colocada a serviço da classe trabalhadora.
Síntese para pronunciamento
A Inteligência Artificial já está mudando o mundo do trabalho. A questão não é ser contra ou a favor da tecnologia. A questão é saber quem decide, quem controla e quem se apropria dos seus benefícios.
A CUT defende que a IA seja regulada com centralidade no trabalho humano, transparência, negociação coletiva, proteção contra demissões, combate à vigilância abusiva e repartição dos ganhos de produtividade.
Se a IA aumenta a produtividade, esse ganho deve significar menos jornada, melhores salários, mais proteção social e mais qualidade de vida — não desemprego, metas abusivas e lucro concentrado.
A tecnologia deve servir à sociedade. Deve servir ao Brasil. Deve servir à classe trabalhadora. Não aceitaremos que algoritmos invisíveis substituam direitos conquistados em décadas de luta.
*Luiz Azevedo é mestre em sociologia, historiador, pedagogo e especialista em planejamento estratégico, assessorando a CUT. Sócio-proprietário da empresa Veredas Inteligência Estratégica S/C Ltda.
Fonte/Créditos: Revista Fórum